7.1.14

(no próprio peito a)

ele vai ao teatro. No palco, a dor. Ele sente piedade, ele chora. No palco, a dor. Ele se compadece profundamente, porque ele é sensível ao sofrimento, à música, à cenografia. No palco, a dor. A dor é bonita. Ele tenta guardar as lágrimas na concha de uma das mãos. Ele quase sente orgulho. São tão bonitas. Ele é uma pessoa tão boa. Ele se sente leve. No palco, a dor. É tão bom ir ao teatro. Agora ele está livre, indene. Na rua, a dor. Em casa, a dor. No quarto, a dor. No peito daquela que dorme ao lado, a dor. A dor é tão vulgar

3.1.14






dormir, dormir

quando a coisa começa a pesar um pouquinho, lonlinha aperta um botão pra parar de sofrer. na verdade são três: tem o botão azul, tem o botão amarelo e tem o botão verde. os três tocam musiquinha quando ela aperta. quando ela quer sofrer, tem um botão pra isso também. na verdade são dois: tem o botão preto, e tem botão o vermelho. o vermelho é legal porque pisca uma luz dentro dele. também faz um barulho de coração batendo rápido, muito rápido. muito. o preto não. o preto é opaco. e, quando ela aperta no preto, escuta a voz do nelson cavaquinho, só a voz, e o som é como se tivesse enterrado, e parece aquela instalação besta... o som, é como se ele tivesse atravessando cinco metros de terra dura só pra chegar aos ouvidinhos de lonlinha, e aí lonlinha dá uma sofridinha gostosa antes de apertar o botão azul, ou o botão amarelo, ou o botão verde

hoje lonlinha disse tô dormido muito

30.12.13

steps to...


há semanas você tenta lembrar o nome dessa banda, o nome dessa música em específico, e você queria muito achar esse vídeo, esse aí. Ontem, do nada, você encontrou o negócio no seu computador velho, numa playlist de videos muito escondida, soterrada. O negócio tava ali junto com um monte de coisa boa de que você nem lembrava. Você sorriu. Você sorriu mais ainda quando percebeu que esse achado banal lhe fez ficar muito bem, bem pra caralho. Tava tudo ali a sua disposição, e você podia ver e rever, e rever, e rever. De noite, você pensou, vou pôr o computador miúdo do lado do travesseiro e vou deitar vendo isso, ouvindo isso, e vai ser bom, vai ser bom. Você extraiu o áudio e pôs no seu mp3zim, e resolveu sair pra algum lugar distante, só pra ter uma desculpa pra ouvir a música no ônibus em movimento. Você tinha plena consciência de que tava exagerando a importância do seu achado, que tava tentando, dum jeito meio bêbado, extrair o máximo de rendimento daquilo, e isso lhe assustou um pouco, mas só um pouco. É domingo, as ruas tão vazias. Você desceu do ônibus e caminhou até a porta de alguém, mas nem chegou a tocar o interfone. Porra, três anos já, você pensou, nem dizer "oi" eu vou saber dizer, e ela me conhece, ela sabe que eu nunca apareceria assim, ela vai achar que pirei, ela era uma boa amiga, ela tá feliz, ela tá empregada, tá bem, ela tá, deixa pra lá. Você sente saudade de olhar pras pernas dela na cara de pau, você se esforçava pra olhar na cara de pau, porque você sabia que ela gostava de ser olhada e desejada e de ficar vendo você olhar e desejar. Isso tinha se tornado um ritual seu e dela, e você adorava o sorriso dela quando você levantava o olhar, e você adorava o clima de cumplicidade criado por aquela cena tantas vezes repetida de propósito, encenada mesmo (quando você menos esperava o lugar já era palco, embora o que tivesse em jogo, as pernas morenas dela, fossem mesmo as pernas morenas dela, claro), pelo clima de confiança criado por todos os outros joguinhos de concessão. Deixa pra lá, deixa pra lá, você repete numa dessas ladainhas mentais bestas mas um pouquinho úteis. A vida, a chuva, o ar: deixa pra lá, deixa pra lá, deixa pra lá. Você caminha até a avenida, senta no ponto, espera seu ônibus, sobe no seu ônibus, senta perto do fundo, abre a janela, põe seus fones, escuta sua música, seu tesouro recém-descoberto e ainda pouco gasto. A realidade dessa bateria, certa realidade do som daquela bateria, ou organicidade... Mas é claro que você não pensa usando essas palavras, você não tem vocabulário pra dizer porque gosta do que gosta, você só tem essa nuvem filha da puta disforme e constante de intuições. Você não tem vocabulário pra explicar o seu gosto por nada. Seu gosto é sempre esse embaraçado constrangedor, essa coisa saturada de enredos afetivos. Mas deixa pra lá. E tudo vai ficando pra lá. Tudo vai ficando pra lá e você se pergunta se ainda lhe resta algo nesse mundo. Claro que sim, você pensa. Mas deixa pra lá

quando você pensa em antropologia você pensa


1. no seu problemático interesse por coisas de antropologia da religião, ritos sacrificiais, funerários, modos de figuração ou encenação da dor (que deveras...), pela relação dos vivos com seus mortos etc.

2. num evento de antropologia visual de que você participou na sua universidade três ou quatro anos atrás, nos poros das longas pernas brancas da jovem pós-doutoranda ruiva que dormiu sentada do seu lado na salinha de vídeo muito fria durante a exibição dum documentário sobre esquimós

3. num peixe pendurado num varal num quintal duma casa do centro da sua cidade numa manhã nublada do inicio de dezembro, em alguém dizendo parece que ele tá voando né


22.12.13

ghosts of low electricity



e ali, como de costume, o deboche, o sarcasmo arrogante, a ostentação de segurança, a falsa confiança, moeda de troca. E ali, como de costume, o caminho mais fácil, a maturidade de quem acha que já chegou. Então você, que tá voltando, que agora só sabe voltar, pensa nos seus amigos, naqueles que lhe dizem, sem lhe dizer, e apesar de toda ilusão, que você é de verdade, que você existe. Então você pensa nos seus amigos, e eles tão mortos

7.12.13

infinitesimal bits of space

sobre o pedro:

"ele não sabe se mexer"

um dia, em 2008, o pedro acordou estranhamente cedo, tomou um banho, sentou na cama olhando pra tevê desligada e resolveu sair pra comprar um pão

(nesse horário, dá pra fazer um passeio agradável, da casa do pedro até a padaria, da padaria de volta pra casa do pedro: bom pra pensar em coisa nenhuma, pra fazer planos ordinários ou pra decidir mudar de vida)

o pedro até hoje não voltou

tampouco chegou a sair

25.11.13

(try and have a softer inside)

(onde o fantasma rememora fatos de sua adolescência cinzenta (aqui não há lugar pra maturidade. fantasmas não podem ser maduros ou ingênuos. a função dum fantasma é a de ser fantasma))

faz um tempo já você tá entusiasmado com esses moleques que voltaram a andar de skate na sua cidade. eles sempre existiram, é claro. mas agora tão ocupando outros lugares, incomodando mais a sua cidadezinha que nunca deixou de ser uma fazenda. ou então é que você tava hibernando e não percebia a existência deles

você teve sua fase skatista, lá pelos doze, treze anos. certa cultura de skate sempre lhe interessou. certo clima disso até hoje interessa. culpa daqueles filmes dos anos oitenta, que você assistia nas tardes modorrentas (não, que isso é palavra de jornalista cultural)... que você assistia nas tardes preguiçosas, moles e calorentas dos noventa, estirado, atravessado na cama, na época que você estudava de manhã. culpa duns videos de compilação de skate de rua que até hoje de vez em quando você assiste porque por algum motivo (talvez os lugares, o som das rodas se aproximando, se afastando, se aproximando, se afastando...) ajudam você a dormir. tem a ver com memória, com anacronia, com produção de presença



com uns doze, treze anos, você ia pro estacionamento do shopping com um amigo seu, o andré, pra muito metidamente treinar. você atravessava a parte de dentro do shopping segurando firme o skate. você segurava o shape bem no meiozinho, que era pra equilibrar o peso e o skate não escorregar do seu antebraço suado. os seguranças encaravam você. os seguranças ficavam encarando você no estacionamento e você se sentia mó malandro doido. massa, você pensava

primeira vez que você deu uma bimbada você pensou a mesma coisa. massa. até hoje, quando você pensa em pôr-do-sol, você não lembra dum fim de tarde numa praia; você lembra dum estacionamento de shopping, e você lembra dum quinto andar, dum apartamento miúdo com uma menina dentro. você hoje vê o pôr-do-sol, e mesmo nos piores dias, você ainda pensa: massa

dia desses você resolveu sair de casa. foi no shopping comprar a porra dum protetor de ouvido. você não tem mais idade pra tocar. mas você resolveu voltar a tocar. você tinha esquecido que esse pinguelo besta e colorido custava caro pra porra. você tá caminhando em direção ao estacionamento e do seu lado passa uma menina duns quinze anos no máximo segurando um skate. você diminui o passo vendo ela seguir em frente. o shopping tá calmo. ela põe o skate no chão e anda pruma parte mais vazia do estacionamento. você senta num degrau distante, que é pra não constranger, e fica olhando. o sol já se pôs e você nem percebeu. você tá ali ainda. você demora um tempo pra perceber que você tá chorando


massa, você diz, olhando pro seu tênis. e volta pra casa

23.11.13

(você. Você cede. Dorme. Não. É o sono que cede a algum apelo. Então você dorme. Pensando na vulgaridade da palavra apelo. E no resto das coisas. O resto. Mas depois do sono vem o dia. Então você se sente nublado. Não. Sujo. Sujeira de sono. Uma sujeira espessa. Dura. Quarenta centímetros de sujeira separam você do mundo. Separam da sua pele aquilo que separa você da pele dos outros. Você respira por um canudo muito fino. Uma agulha quase. Você respira por uma agulha. Não é sangue. É ar só. Ar pro sangue. Lá dentro ainda tem sangue. Quer dizer. Aqui dentro. Meu sangue. Aqui. Por trás de lá. Atrás de lá. Isso. É simples. Não. Você é um pulmão. Você. Só. Sempre. Você começa a escrever sobre isso na cabeça. Pra se livrar disso. Você não tem medo de sangue. Você tem medo de agulha. "A agulha etc.". A cabeça é um caderno vulgar. Você escreve "a cabeça é um palimpsesto carnavalesco". Depois escreve "buquê de papel carbono". Você acha vulgar. Você acha adolescente. Quer dizer. Adultista. Livresco. Pedante. Afetado. Mas você sabe que essa não é a sua voz. Você reduziu a sua voz ao mais básico. Simples. Neutro. Você não é mais um artista. Você não é mais um acadêmico. Você não precisa ser condescendente com nada. Você não ama. Você não é nem um bêbado. Você não chega a covarde. Você gosta de sentar em degraus e ver o mundo. "Ver o mundo". Daquela altura. "Certas coisas só podem ser ditas naquela altura". "Fazer amigos naquela altura". "Rir naquela altura". "Fazer amor naquela altura". Tudo muito vulgar. E quarenta centímetros entre os seus olhos e o mundo. Entre a sua boca e o mundo. Entre os seus olhos. Sua boca. Seu pau. Sua pele. E o mundo. Não. Você não tem o dom da asserção. "O dom da asserção". Você é condescendente com tudo. Você ama. Você não tem voz. Você não quer entrar. Você não quer entender. Você quer sair. Você quer dar uma volta. Mas um dia você vai acordar nublado. Quer dizer. “Quarenta centímetros”. Vai ser esse o seu expediente. Vai ser essa a sua vida. Ar entrando lentamente por uma agulha. Ar saindo lentamente pela mesma agulha. Uma boca. Um canudo muito fino. Vai ser esse o seu teatro. Mas pode acontecer de você se sentar ao seu lado e ler esse poema pra você. E você se sentiria um pouco bem. E você sorriria se pudesse. E você olharia pra você se pudesse. E eu olharia pra você se pudesse. Naquela altura. Eu)


21.11.13

2

ela me disse que noite passada acordou tensa e molhada de suor e que demorou quase um minuto pra acreditar que ali era mesmo o quarto dela e pra se sentir segura e bem porque teve um pesadelo que foi muito ruim que parecia aquele conto do borges das ruínas lembra? e agora aconteceu de novo quer dizer ela acordou tensa e com a camiseta grudada na pele e demorou um minuto quase pra ficar bem e pra acreditar que aqui é mesmo o meu quarto e que eu tô mesmo aqui e posso ouvir isso que ela tá me sussurrando aqui e agora e eu acredito nela e ela parece saber disso e isso é bom ela me disse

1

ela passa a noite na frente do computador rindo pra cima sozinha de gifs e coisas toscas às vezes ela ri olhando prum dos pés parece que ela tá rindo tirando sarro do próprio pé ela fica pensando no que alguém pensaria se visse a cena e aí ela sente vergonha e para de rir mas aí depois volta a rir de novo sem parar só que agora de leve volta a rir disso tudo e da própria vergonha até que começa a sentir câimbra e vai pulando numa perna só pra cama porque câimbra é um negócio muito muito sério ela diz já deitada na cama como se alguém tivesse escutando como se alguém se importasse

20.11.13

walmor, ana, wilson

(esse não é definitivamente não é um blog de jornalismo cultural esse é um blog memorialístico: primeiro buceta, depois ozu)

uma vez eu bimbei e rolou sangue. eu tenho medo de sangue. nego diz que o sangue dá uma incrementada no negócio. eu tenho medo de sangue. mas dá mermo. a carga estética do sangue menstrual (existe mesmo toda uma paleta de vermelhos. você descobre isso com o tempo. tem a ver com a alimentação etc. né. pois é). no meio do amorzinho, ela, que tava por cima, abriu os olhos, me olhou no rosto e começou a rir. ela ria muito. aí ela começou a remar devagarinho. ela continuava rindo. mas não parava de remar. devagarinho. ela chegou lá rindo. amoleceu. encaixou o queixo na minha clavícula e disse, ainda rindo, baixinho, molinha molinha, ofegante: wil... son


a expressão no rosto dela, que eu não podia ver direito, mas que até hoje imagino, é pra mim, ainda hoje, a imagem da felicidade

me chamo walmor. prazer

19.11.13

i used to like it here

aos poucos você magoa os poucos amigos que restam. você tem um dia ruim. você volta de ônibus ouvindo elliott smith. elliott smith é uma pequena revelação do divino, você gosta de repetir essa frase boba na cabeça. sempre vão existir ônibus pra abrigar suas autocomiserações. freadas, arrancadas, curvas. e você ali ouvindo elliott smith. é uma das cenas que vem à cabeça quando você se sente sozinho. você lembra que pode contar com isso. você pensa nas várias de vezes em que isso aconteceu. nas várias vezes em que isso vai ainda acontecer. numas poucas ocasiões você dividiu os fones com alguém especial. faz muito tempo, você pensa. você acaba cochilando. você acorda atrasado três pontos depois do seu


você desce. você come um sanduíche e toma uma coca-cola num lugar que você não sabia que existia. depois do segundo gole você sente um incômodo. você termina o sanduíche bem devagar, assistindo a novela que passa numa tevê improvisada, assistindo as senhoras da mesa próxima assistir a novela. elas parecem se compadecer do vilão viado. a coca-cola nunca vai ser a mesma da infância. melhor parar definitivamente então, você pensa. você sente uma leve, rápida tristeza depois de tomar essa decisão. um carro atravessa o sinal vermelho e provoca um pequeno coro de buzinas

você pensa em alguém. você tenta imaginar o que essa pessoa tá pensando naquele exato momento. você pensa em alguém. preciso comprar um desses puffs grandes pro meu quarto, alguém pensa. você sorri olhando pra embalagem de catchup. você paga a conta. volta caminhando pra casa. aos poucos, por causa da sua mágoa, você magoa os poucos amigos que restam. você pensa nisso de novo. você pensa em alguém que quer comprar um puff gigante prum quarto minúsculo. alguém que sempre sonhou em cair dum prédio em cima dum desses colchões infláveis de segurança. você vai dormir. mas só daqui a pouco. você tenta imaginar o que se passa na cabeça e na barriga dela durante todo o percurso duma queda de quinze andares. você vai já dormir. mas só daqui a pouco. você pensa nela esparramada no puff. rindo. dormindo. a leveza das mãos, dos pés. dormir. mas só daqui a pouco

18.11.13

perfil

1. ela é estranha. Evita todos os olhares quando passa. Nunca troquei uma palavra com ela. Ela é corcunda, anda sempre de tênis. Um tênis sujo. Porra. Muito sujo. Tenho medo dela. Ela deve feder

2. ela é minha cúmplice. Ela é melhor pessoa que eu conheço. Sei tudo sobre ela. Somos cúmplices. De certo modo, a gente se ama. Dificilmente alguém que não a conheça como eu conheço encontraria nela qualquer sinal de vida. Não existe ninguém que tenha vivido mais do que ela. Eu sei. Ninguém sabe. Ela confia em mim. Não sei por que confia em mim. Não seria difícil magoa-la. Mas ela confia. Confio nela porque ela não se deita com mais ninguém pra falar o que me fala. Ela poderia morrer amanhã e ninguém daria pela falta dela. Apesar da dor, nem eu daria tanto pela falta dela. Meus amigos não a conhecem. Eu não falaria dela pra eles. Sou forte, não cultivo lembranças inúteis, não é difícil pra mim. Os mortos devem morrer. Acho essa frase bonita
3. ela é bem bonita até, mas não custava se ajeitar um pouco. Puta falta de senso pra roupa. Ouvi dizer que ela toma remédio controlado. É doida. A primeira menina que me beijou na escola tomava remédio controlado. Era doida pra caralho. Nunca tentei me aproximar dessa. Essa passa longe de todo mundo. Quando eu era uma criança tímida, sempre me perguntavam: "e tu tem medo de gente é?". Eu tinha raiva. Mas superei. Não sou mais tímido. As pessoas tem que crescer. Se eu consegui, qualquer um consegue. É questão de força de vontade, de trato bruto. Ela é imatura, quer aparecer, isso sim
4. ela carrega um cansaço bonito no corpo. Ela não tem cansaço, ela carrega, modela, cuida desse cansaço. O peso deve ser grande. O corpo um pouco penso tem seu charme. Às vezes vejo que ela anda com a cabeça inclinada pra esquerda, e um pouco pra frente. Penso que o cansaço tá ali, descansando no colo dela, sentindo o cheiro dos cabelos, o cheiro e a textura do ombro dela. Só consegui surpreender o olhar dela uma vez. Ela desviou assustada, como se aquilo trouxesse consequências irremediáveis pra mim, como se qualquer faísca de esperança pudesse me queimar, como se pra ela o olhar fosse o pai de toda esperança e a esperança a mãe de toda miséria. Foi a única vez que a vi assustada. Parece sempre muito calma. Ela é calma e cansada, e me assusta que, sem saber nada sobre ela, passe pela minha cabeça, usando um verbo inverossímil, que eu a ame. Viver é ter esperança, ínfimas, elaboradas ou não. Ela prefere estar morta. Amo alguém que quer morrer

17.11.13

"chato, gasto, cheio de manias e lembranças"

o walmor tem um blog. o título do blog etc.



eu passaria horas escutando o catatau falar. ele não fala nada demais. ele fala umas coisas aí. até bobas. essa voz de taquara rachada. e eu passaria horas escutando o catatau falar. sei lá por quê. vai ver é a prosódia dele. o que diabo é prosódia mermo? enfim. escuto ele falar e me vêm umas coisas na cabeça. umas coisas que não chegam a puxar palavra pra formar frase. mentira. tem uma palavra que me vem à cabeça. é "amizade", que é uma palavra meio insensata né. "amizade". não sei por que essa palavra. não é porque ele fala dos amigos no meio da conversa não. é outra coisa. é o jeito dele de falar. tem um sentido de amizade, um senso de amizade no que ele fala. como tem gente que tem senso de humor ou de ironia. mas claro que existem vários sensos de humor. vários sensos de ironia. uns escrotos. ele fala e eu penso em certo sentido de amizade e no quanto isso é importante. me reconforta. quando eu sinto vontade de falar com um amigo que tá longe eu vejo essas entrevistas e dá uma paz. lembro dum show do cidadão que assisti e sinto uma puta saudade também. foi em 2008, em fortaleza, no dragão. a escola tinha acabado (range life né não). eu caminhava em fortaleza carregando um livro de direito na mochila. eu tinha desistido de fazer filmes e carregava um livro de direito e andava na praia com um mp3zim e ficava pensando: "porra". eu pensava o tempo inteiro: "porra", "agora é isso" etc. depois eu desisti do direito também. direito não faz sentido nesse mundo de cães sonâmbulos e vadios, gatos afobados e vasos de porcelana. eu tava prestes a conhecer os amigos que hoje me fazem falta. quando cê fala ou escreve, o importante é o tom. e o tom certo guarda alguma coisa. não fura. sinto falta disso. e da coisa guardada. não uso mais aquela mochila. não tenho mais o mp3zim. eu queria ler revista do cascão pro meu filho dormir e depois ficar bêbado com a carol. eu não tenho filho nenhum, não tenho carol nenhuma. agora eu gosto é de ficar escutando o catatau falar. agora eu tenho isso

saca?

10.11.13

etc.

algo que tem a ver com as contingências doidamente articuladas e as enormes limitações da primeira adolescência dela, as horas mortas dos dias vazios, a completa falta de jeito pra vida prática apesar de seus esforços quase sempre violentamente físicos, cardíacos de tão constrangedores. algo que não tem nada a ver com inteligência, que tem a ver talvez com uma burrice desenvolvida dentro de regiões cinzentas e granulosas da própria burrice. eu sou burra. eu tenho 27 anos. eu sou burra e gorda e me chamo marilyn, lonely marilyn. e esmeraldo. e walmor

2.11.13

hoje lonlinha não suporta esse disco


vida e morte de lonely marilyn

a história duma
menina que
dos quinze aos vinte
e cinco
só conseguia dormir
colocando o pet
sounds
pra tocar no som velho
da sala

*

a história duma
menina que
se chama marilyn
lonely marilyn

*

lonely marilyn morreu
atropelada por um
ônibus azul e vazio
às sete duma manhã
sem graça
coitado do pompílio

*

lonely marilyn morreu
engasgada com um
pedaço de pão francês
da padaria do alemão
que não se chamava pompílio

*

o padeiro não é
português é alemão
mas aprender
a fazer pão francês
ele aprendeu
nalgum lugar
de portugal
quando morou não
se sabe em que parte
de portugal
antes de vir pro brasil
apesar de o pão
ser francês

*

antes de dar
o último suspiro
como se diz
lonely marilyn lembrou
que o alemão
diria pra toda a vizinhança
com um erre bem aspirado
que um autocarro
acertou marilyn
em cheio porque
em portugal
ônibus se diz autocarro
com erre aspirado
lembrou disso
e sorriu
antes de dar
o último suspiro
como se diz

*

as músicas vinham
de longe da sala
chegavam ao quarto
filtradas pelas paredes
misturadas ao vento
do sétimo andar
e então ela
conseguia dormir
senão não
ela não conseguia
dormir

*

pompílio era o nome
do motorista
do ônibus ou autocarro
com erre aspirado
que matou marilyn
mas esse também morreu
uns anos depois
atropelado por um
ônibus ou autocarro
com erre aspirado
era dia de folga
do pompílio
senão o pompílio teria
ele mesmo
atropelado o pompílio

*

lonely marilyn já morreu
atropelada já morreu
engasgada já morreu
afogada já morreu
assassinada já morreu
várias vezes
mas ainda não morreu
a história de lonely
marilyn não tem fim
porque lonely 
marilyn não consegue
dormir

31.10.13

da perseverança

iniciozinho de noite. Depois de horas na piscina, as mãos já tão enrugadas. Mas ela quer dar mais um mergulho. Tenta ir até a borda oposta sem respirar, bem devagar. Nunca abre os olhos debaixo d'água e se admira quando sente uma das mãos tocar os azulejos azuis que ela não vê. Consegue voltar sem respirar também. Tenta dessa vez ir e voltar sem respirar. Se admira de novo. Tenta aguentar mais. Consegue. E mais ainda. Consegue. Quer dar o máximo de si e só vai ceder quando não tiver mais jeito

ela ainda tá lá, indo e voltando, e indo de novo, e voltando e indo, sem respirar. Ontem sonhei que ela abria a porta do quarto e tocava meu rosto com suas mãos enrugadas. Não sei se me escuta quando falo daqui da beira da piscina. Imagino que minha voz, abafada pela água, soe triste e incomode. Queria poder narrar o sonho pra ela, dizer o que ela me disse, ofegante, quando abri os olhos. Hoje ela comemora três anos debaixo d'água e agora eu sinto uma pontinha de alegria imaginando o quanto ela deve tá feliz

28.10.13

não, sim, não, sim (não)

quando eu estudava filosofia da técnica, numa dessas iniciações científicas da vida, uma frase grudou na minha cabeça. pros apocalípticos, o expediente da razão técnica seria mais ou menos o seguinte: "tudo que pode ser feito --> deve ser feito [e uma hora isso vai dar em merda]". possibilidade --> dever, aproveitamento. a frase é boba, redutora, mas útil. eu pensava muito nela, e tentava aplicar a quase tudo pra ver no que podia dar. nessa época descobri que eu era um imoral moralista, um egoísta e um entusiasta de david foster wallace, esse inventor de sensos morais de segunda ordem, esse demônio da aufhebung zuera. hoje, pensando nisso, eu descobri que ainda acho que tô certo, e descobri que ainda sou o mesmo bosta

(e é claro que isso não é sobre biopolítica, sobre clones doadores ou sobre robôs regendo a sexta de mahler. isso é sobre trepar)


(ora. mas trepar não tem nada a ver com isso, rapá. trepar é bom e ponto. "que seja esquecido tudo acima dito" etc.)


prazer. meu nome é walmor. qual o seu? quer tc?



(o do walmor é um blog à moda antiga. tem gifs bonitinhos)






20.10.13

de madrugada estudantes de psicologia precisam muito de chocolate e carinho diz o instituto de pesquisa

deitada em mim cabelos ainda úmidos ela narra casos clínicos com um tom de criança com curiosidade de detetive insegurança medo ela finge que rói as unhas na verdade morde de leve a ponta dos dedos ainda enrugados a dor dos outros não lhe diz respeito é hora de dormir eles que se fodam eles que se fodam mas já são dela as dores por contaminação minhas as dores deitada em mim narrando a dor dos outros ela omite a figura que interpreta e aconselha e que é ela mesma atrás da mesa ou ao lado da poltrona mulher coesa em horário de expediente e cabelos ainda úmidos e chorando eles que se fodam onde tu pôs o controle da tevê ela pergunta ela clica nove e depois nove de novo e a luz da tevê faz o botão brilhar um pouco por causa da saliva que do dedo passa ao botão padrinhos mágicos boa noite

19.10.13

lonlinha e a literatura (mentira)



(lonlinha sempre preferiu tolstói a dostoiévski, que costumava chamar carinhosamente de dodói-evski. mas seu livro de cabeceira, nos meses que precederam a morte, era uma ediçãozinha toda fudida de contos do tchékhov, que, segundo ela, era o que mais lhe dizia respeito, junto com o antigo testamento e as obras reunidas de emmanuel bove (grande paixão que compartilhava com o seu falecido (costumavam ler juntos na cama o diálogo da ponte do "mes amis" e riam juntos um riso nostálgico antes de cederem ao cansaço da recém tentativa de bimbada geriátrica e dormir ("boa noite, dolores", ele dizia, apesar de terem quase a mesma idade. "boa noite, seu bosta", ela respondia, e era dum carinho insuportável pra ele))))

11.8.13

lonlinha, o retorno (para, predo)

lonely marilyn às vezes se sentia impelida a escrever coisas altivas e sérias e excessivas e edificantemente toscas, apesar de sua aversão a toda forma de grandeza (fosse moralmente alta, fosse moralmente baixa). um exemplo interessante esse poema provavelmente escrito numa noite insone e cuja pomposidade metafórica é surpreendida pela figura duma pochete

são petersbuço

'o delicado buço sobre o lábio curto não é meu
é da femme la plus séduisante de pétersbourg
o buço que é meu é este que compõe
junto às comissuras dos olhos e da boca
a paisagem especular de minha breve danação


a voz infantil que me sai pela boca
não condiz ao sexo afundado em que se multiplicam
com insuportável tranquilidade
o mal a memória dos mortos o câncer rouco
e que me pesa como uma pochete
carregada de chaves cujas portas já não'


(uma vez disseram pra lonely marilyn 'vc é muito hegeliana, lonlinha'. foi na festa do seu aniversário de 68 anos, quando ela leu com deliberada euforia um dos dísticos mais tristes da adília lopes: "Podia ser muito feliz / se não fosse muito infeliz". ela não suportava os convidados, em sua maioria ex-colegas dos anos de docência numa escola de elite em que, àquela data, seus netos aprendiam a ser inteligentes dum jeito imbecil. "a burrice bem modelada é o segredo do amor", ela costumava lhes dizer, com um desânimo que era motivo de chacota entre os demais familiares) 

25.7.13

poema à moda de adília lopes

lonely marilyn vai ao
supermercado domingo à tardinha
comprar alfajores

depois do
supermercado domingo à tardinha
lonely marilyn vai ao

cinema sozinha
assistir a mais nova comédia
romântica

depois volta pra casa
pensando no filme e na vida
e comendo alfajores

lonely marilyn é
uma mulher
muito feliz e gorda

7.11.12

el que se llora

Un día de noviembre que amaneció lloviendo me desperté después que aclaró. Se oía el rumor del agua, complejo y monótono -- ¡quantas veces se ha dicho lo mismo sobre la lluvia! Por las celosías entraba en el dormitorio una luz verdosa. Me quedé tirado en la cama, con los ojos abiertos, mirando la penumbra que era cada vez más débil pero que se espesaba cerca del cielorraso. Un sueño que acabava de tener permanecía en mi mente, obstinado, un sueño en el que había visto a mi tío Pedro, hermano de mi madre que trabajó mucho tiempo en la usina y que después se independizó y compró una panadería. Mi tío había muerto el mes antes. En el sueño aparecía llorando su propia muerte.

Los sueños me dan miedo, y sueño mucho. ¿Tengo miedo de lo que sueño o simplesmente tengo miedo porque sueño? Me sentí triste esa mañana pensando en mi tío Pedro que vino a morirse justo cuando la panadería empezava a andar bien pero después -- afortunadamente -- la curiosidad venció a la tristeza y medité sobre el significado del sueño hasta cerca de las nueve. Durante todo el tiempo llovió sin parar y el ruido de la lluvia me mantuvo como adormecido, así que ahora no sé bien si por momentos no me puse a soñar el sentido de lo que había soñado. Una chica amiga, maestra de escuela que después se casó con un professor de matemáticas y se fue a vivir al Perú, me contó que ella siempre soñaba que lloraba frente a su proprio cajón. Que se miraba muerta y lloraba. ¿Qué lloramos de nosotros mismos cuando nos lloramos en sueños? Lo sabe únicamente el que se llora. Buscar en esa fuente de llanto es un trabajo difícil y la mirada tranquila de la curiosidad no alcanza a ver tan hondo. Para ver el dolor, tenemos que estar en él. Pero lo que sorprende todavía más es que el que se llora, el que ve su cadáver o se conduele de su propia muerte, está parado en un punto tan singular de la gran llanura de la pena que su llanto es al mismo tiempo recuerdo y anticipación. En las grandes llanuras el horizonte es siempre circular, idéntico, vacío y monótono.

-- argumentos, la mayor, juan josé saer

9.3.09

Tiraram das ruas a dor do temporal.
Trouxeram você. Esse sorriso na cara,
e um cheiro de sereno nas costas.

4.3.09

sarau

Ela dormia, babava no travesseiro. Ele acordado, problemas de sono. No chão frio do quarto, empolgado com a leitura, ele sussurrou: A sua manhã, a minha manhã, que extraordinário haver duas manhãs neste mundo! Ela babava.

17.12.08

vaso comunicante inc.

o esquecimento não é
mais
o fim de todos os
males

a paz não é
mais
o resultado da
trégua

feridas abertas
incontinência
verbal
o silêncio pede
passagem


15.12.08

frio

Ela dorme. O suor. Em outro canto do planeta, copinhos de plástico vazios. Faz frio.