30.12.13

steps to...


há semanas você tenta lembrar o nome dessa banda, o nome dessa música em específico, e você queria muito achar esse vídeo, esse aí. Ontem, do nada, você encontrou o negócio no seu computador velho, numa playlist de videos muito escondida, soterrada. O negócio tava ali junto com um monte de coisa boa de que você nem lembrava. Você sorriu. Você sorriu mais ainda quando percebeu que esse achado banal lhe fez ficar muito bem, bem pra caralho. Tava tudo ali a sua disposição, e você podia ver e rever, e rever, e rever. De noite, você pensou, vou pôr o computador miúdo do lado do travesseiro e vou deitar vendo isso, ouvindo isso, e vai ser bom, vai ser bom. Você extraiu o áudio e pôs no seu mp3zim, e resolveu sair pra algum lugar distante, só pra ter uma desculpa pra ouvir a música no ônibus em movimento. Você tinha plena consciência de que tava exagerando a importância do seu achado, que tava tentando, dum jeito meio bêbado, extrair o máximo de rendimento daquilo, e isso lhe assustou um pouco, mas só um pouco. É domingo, as ruas tão vazias. Você desceu do ônibus e caminhou até a porta de alguém, mas nem chegou a tocar o interfone. Porra, três anos já, você pensou, nem dizer "oi" eu vou saber dizer, e ela me conhece, ela sabe que eu nunca apareceria assim, ela vai achar que pirei, ela era uma boa amiga, ela tá feliz, ela tá empregada, tá bem, ela tá, deixa pra lá. Você sente saudade de olhar pras pernas dela na cara de pau, você se esforçava pra olhar na cara de pau, porque você sabia que ela gostava de ser olhada e desejada e de ficar vendo você olhar e desejar. Isso tinha se tornado um ritual seu e dela, e você adorava o sorriso dela quando você levantava o olhar, e você adorava o clima de cumplicidade criado por aquela cena tantas vezes repetida de propósito, encenada mesmo (quando você menos esperava o lugar já era palco, embora o que tivesse em jogo, as pernas morenas dela, fossem mesmo as pernas morenas dela, claro), pelo clima de confiança criado por todos os outros joguinhos de concessão. Deixa pra lá, deixa pra lá, você repete numa dessas ladainhas mentais bestas mas um pouquinho úteis. A vida, a chuva, o ar: deixa pra lá, deixa pra lá, deixa pra lá. Você caminha até a avenida, senta no ponto, espera seu ônibus, sobe no seu ônibus, senta perto do fundo, abre a janela, põe seus fones, escuta sua música, seu tesouro recém-descoberto e ainda pouco gasto. A realidade dessa bateria, certa realidade do som daquela bateria, ou organicidade... Mas é claro que você não pensa usando essas palavras, você não tem vocabulário pra dizer porque gosta do que gosta, você só tem essa nuvem filha da puta disforme e constante de intuições. Você não tem vocabulário pra explicar o seu gosto por nada. Seu gosto é sempre esse embaraçado constrangedor, essa coisa saturada de enredos afetivos. Mas deixa pra lá. E tudo vai ficando pra lá. Tudo vai ficando pra lá e você se pergunta se ainda lhe resta algo nesse mundo. Claro que sim, você pensa. Mas deixa pra lá