lonely marilyn às vezes se sentia impelida a escrever coisas altivas e sérias e excessivas e edificantemente toscas, apesar de sua aversão a toda forma de grandeza (fosse moralmente alta, fosse moralmente baixa). um exemplo interessante esse poema provavelmente escrito numa noite insone e cuja pomposidade metafórica é surpreendida pela figura duma pochete
são petersbuço
'o delicado buço sobre o lábio curto não é meu
é da femme la plus séduisante de pétersbourg
o buço que é meu é este que compõe
junto às comissuras dos olhos e da boca
a paisagem especular de minha breve danação
a voz infantil que me sai pela boca
não condiz ao sexo afundado em que se multiplicam
com insuportável tranquilidade
o mal a memória dos mortos o câncer rouco
e que me pesa como uma pochete
carregada de chaves cujas portas já não'
(uma vez disseram pra lonely marilyn 'vc é muito hegeliana, lonlinha'. foi na festa do seu aniversário de 68 anos, quando ela leu com deliberada euforia um dos dísticos mais tristes da adília lopes: "Podia ser muito feliz / se não fosse muito infeliz". ela não suportava os convidados, em sua maioria ex-colegas dos anos de docência numa escola de elite em que, àquela data, seus netos aprendiam a ser inteligentes dum jeito imbecil. "a burrice bem modelada é o segredo do amor", ela costumava lhes dizer, com um desânimo que era motivo de chacota entre os demais familiares)