2. ela é minha cúmplice. Ela é melhor pessoa que eu conheço. Sei tudo sobre ela. Somos cúmplices. De certo modo, a gente se ama. Dificilmente alguém que não a conheça como eu conheço encontraria nela qualquer sinal de vida. Não existe ninguém que tenha vivido mais do que ela. Eu sei. Ninguém sabe. Ela confia em mim. Não sei por que confia em mim. Não seria difícil magoa-la. Mas ela confia. Confio nela porque ela não se deita com mais ninguém pra falar o que me fala. Ela poderia morrer amanhã e ninguém daria pela falta dela. Apesar da dor, nem eu daria tanto pela falta dela. Meus amigos não a conhecem. Eu não falaria dela pra eles. Sou forte, não cultivo lembranças inúteis, não é difícil pra mim. Os mortos devem morrer. Acho essa frase bonita
3. ela é bem bonita até, mas não custava se ajeitar um pouco. Puta falta de senso pra roupa. Ouvi dizer que ela toma remédio controlado. É doida. A primeira menina que me beijou na escola tomava remédio controlado. Era doida pra caralho. Nunca tentei me aproximar dessa. Essa passa longe de todo mundo. Quando eu era uma criança tímida, sempre me perguntavam: "e tu tem medo de gente é?". Eu tinha raiva. Mas superei. Não sou mais tímido. As pessoas tem que crescer. Se eu consegui, qualquer um consegue. É questão de força de vontade, de trato bruto. Ela é imatura, quer aparecer, isso sim
4. ela carrega um cansaço bonito no corpo. Ela não tem cansaço, ela carrega, modela, cuida desse cansaço. O peso deve ser grande. O corpo um pouco penso tem seu charme. Às vezes vejo que ela anda com a cabeça inclinada pra esquerda, e um pouco pra frente. Penso que o cansaço tá ali, descansando no colo dela, sentindo o cheiro dos cabelos, o cheiro e a textura do ombro dela. Só consegui surpreender o olhar dela uma vez. Ela desviou assustada, como se aquilo trouxesse consequências irremediáveis pra mim, como se qualquer faísca de esperança pudesse me queimar, como se pra ela o olhar fosse o pai de toda esperança e a esperança a mãe de toda miséria. Foi a única vez que a vi assustada. Parece sempre muito calma. Ela é calma e cansada, e me assusta que, sem saber nada sobre ela, passe pela minha cabeça, usando um verbo inverossímil, que eu a ame. Viver é ter esperança, ínfimas, elaboradas ou não. Ela prefere estar morta. Amo alguém que quer morrer