(você. Você cede. Dorme. Não. É o sono que cede a algum apelo. Então você dorme. Pensando na vulgaridade da palavra apelo. E no resto das coisas. O resto. Mas depois do sono vem o dia. Então você se sente nublado. Não. Sujo. Sujeira de sono. Uma sujeira espessa. Dura. Quarenta centímetros de sujeira separam você do mundo. Separam da sua pele aquilo que separa você da pele dos outros. Você respira por um canudo muito fino. Uma agulha quase. Você respira por uma agulha. Não é sangue. É ar só. Ar pro sangue. Lá dentro ainda tem sangue. Quer dizer. Aqui dentro. Meu sangue. Aqui. Por trás de lá. Atrás de lá. Isso. É simples. Não. Você é um pulmão. Você. Só. Sempre. Você começa a escrever sobre isso na cabeça. Pra se livrar disso. Você não tem medo de sangue. Você tem medo de agulha. "A agulha etc.". A cabeça é um caderno vulgar. Você escreve "a cabeça é um palimpsesto carnavalesco". Depois escreve "buquê de papel carbono". Você acha vulgar. Você acha adolescente. Quer dizer. Adultista. Livresco. Pedante. Afetado. Mas você sabe que essa não é a sua voz. Você reduziu a sua voz ao mais básico. Simples. Neutro. Você não é mais um artista. Você não é mais um acadêmico. Você não precisa ser condescendente com nada. Você não ama. Você não é nem um bêbado. Você não chega a covarde. Você gosta de sentar em degraus e ver o mundo. "Ver o mundo". Daquela altura. "Certas coisas só podem ser ditas naquela altura". "Fazer amigos naquela altura". "Rir naquela altura". "Fazer amor naquela altura". Tudo muito vulgar. E quarenta centímetros entre os seus olhos e o mundo. Entre a sua boca e o mundo. Entre os seus olhos. Sua boca. Seu pau. Sua pele. E o mundo. Não. Você não tem o dom da asserção. "O dom da asserção". Você é condescendente com tudo. Você ama. Você não tem voz. Você não quer entrar. Você não quer entender. Você quer sair. Você quer dar uma volta. Mas um dia você vai acordar nublado. Quer dizer. “Quarenta centímetros”. Vai ser esse o seu expediente. Vai ser essa a sua vida. Ar entrando lentamente por uma agulha. Ar saindo lentamente pela mesma agulha. Uma boca. Um canudo muito fino. Vai ser esse o seu teatro. Mas pode acontecer de você se sentar ao seu lado e ler esse poema pra você. E você se sentiria um pouco bem. E você sorriria se pudesse. E você olharia pra você se pudesse. E eu olharia pra você se pudesse. Naquela altura. Eu)
