25.11.13

(try and have a softer inside)

(onde o fantasma rememora fatos de sua adolescência cinzenta (aqui não há lugar pra maturidade. fantasmas não podem ser maduros ou ingênuos. a função dum fantasma é a de ser fantasma))

faz um tempo já você tá entusiasmado com esses moleques que voltaram a andar de skate na sua cidade. eles sempre existiram, é claro. mas agora tão ocupando outros lugares, incomodando mais a sua cidadezinha que nunca deixou de ser uma fazenda. ou então é que você tava hibernando e não percebia a existência deles

você teve sua fase skatista, lá pelos doze, treze anos. certa cultura de skate sempre lhe interessou. certo clima disso até hoje interessa. culpa daqueles filmes dos anos oitenta, que você assistia nas tardes modorrentas (não, que isso é palavra de jornalista cultural)... que você assistia nas tardes preguiçosas, moles e calorentas dos noventa, estirado, atravessado na cama, na época que você estudava de manhã. culpa duns videos de compilação de skate de rua que até hoje de vez em quando você assiste porque por algum motivo (talvez os lugares, o som das rodas se aproximando, se afastando, se aproximando, se afastando...) ajudam você a dormir. tem a ver com memória, com anacronia, com produção de presença



com uns doze, treze anos, você ia pro estacionamento do shopping com um amigo seu, o andré, pra muito metidamente treinar. você atravessava a parte de dentro do shopping segurando firme o skate. você segurava o shape bem no meiozinho, que era pra equilibrar o peso e o skate não escorregar do seu antebraço suado. os seguranças encaravam você. os seguranças ficavam encarando você no estacionamento e você se sentia mó malandro doido. massa, você pensava

primeira vez que você deu uma bimbada você pensou a mesma coisa. massa. até hoje, quando você pensa em pôr-do-sol, você não lembra dum fim de tarde numa praia; você lembra dum estacionamento de shopping, e você lembra dum quinto andar, dum apartamento miúdo com uma menina dentro. você hoje vê o pôr-do-sol, e mesmo nos piores dias, você ainda pensa: massa

dia desses você resolveu sair de casa. foi no shopping comprar a porra dum protetor de ouvido. você não tem mais idade pra tocar. mas você resolveu voltar a tocar. você tinha esquecido que esse pinguelo besta e colorido custava caro pra porra. você tá caminhando em direção ao estacionamento e do seu lado passa uma menina duns quinze anos no máximo segurando um skate. você diminui o passo vendo ela seguir em frente. o shopping tá calmo. ela põe o skate no chão e anda pruma parte mais vazia do estacionamento. você senta num degrau distante, que é pra não constranger, e fica olhando. o sol já se pôs e você nem percebeu. você tá ali ainda. você demora um tempo pra perceber que você tá chorando


massa, você diz, olhando pro seu tênis. e volta pra casa