você desce. você come um sanduíche e toma uma coca-cola num lugar que você não sabia que existia. depois do segundo gole você sente um incômodo. você termina o sanduíche bem devagar, assistindo a novela que passa numa tevê improvisada, assistindo as senhoras da mesa próxima assistir a novela. elas parecem se compadecer do vilão viado. a coca-cola nunca vai ser a mesma da infância. melhor parar definitivamente então, você pensa. você sente uma leve, rápida tristeza depois de tomar essa decisão. um carro atravessa o sinal vermelho e provoca um pequeno coro de buzinas
você pensa em alguém. você tenta imaginar o que essa pessoa tá pensando naquele exato momento. você pensa em alguém. preciso comprar um desses puffs grandes pro meu quarto, alguém pensa. você sorri olhando pra embalagem de catchup. você paga a conta. volta caminhando pra casa. aos poucos, por causa da sua mágoa, você magoa os poucos amigos que restam. você pensa nisso de novo. você pensa em alguém que quer comprar um puff gigante prum quarto minúsculo. alguém que sempre sonhou em cair dum prédio em cima dum desses colchões infláveis de segurança. você vai dormir. mas só daqui a pouco. você tenta imaginar o que se passa na cabeça e na barriga dela durante todo o percurso duma queda de quinze andares. você vai já dormir. mas só daqui a pouco. você pensa nela esparramada no puff. rindo. dormindo. a leveza das mãos, dos pés. dormir. mas só daqui a pouco