Na foto, Dona Luísa, 31 de maio de 1972, minutos antes de dar o seu primeiro salto de paraquedas. Atrás da câmera, o marido. A gente a vê como ele a viu? A gente a vê no que ela vê quando ele a olha? Não. Sim. Valdivino Tito é um puta nome engraçado
16.10.14
6.10.14
mo(u)rning trip
1
Foi na esquina da 13 de Maio com a Valdivino Tito que conheci Dona Luísa. Dona Luísa é uma senhora pequena e amável, e está sempre sorrindo, ostensivamente, como se não fazê-lo fosse falta gravíssima e todos devessem imitá-la. Aqui a maioria a conhece. O marido, com quem viveu por mais de quarenta anos, cliente dileto do bar e amigo de todos os demais fiéis frequentadores, morreu. Hoje faz dois meses, fiquei sabendo. Há cerca de três semanas, Dona Luísa começou a vir diariamente, chegando às quatro e partindo às seis, e, como durante anos o marido diariamente fizera, Dona Luísa se senta na mesa atrás do freezer azul-claro, sempre na mesa atrás do freezer azul-claro, e bebe suas sagradas cinco antarcticas. Dona Luísa parece fazer isso como se assim pudesse esconder de si mesma e dos demais a inelutável descontinuidade da morte
2
Inelutável continuidade da vida: tendo acabado de perder aquela com quem partilhara a maior parte dos seus dias, ele, aquele sobre quem a sombra da morte mais pesará, diz, com uma voz que é menos sua que daqueles que o cercam: "Mais um dia quente". Foi em Ozu
3
Valdivino Tito é um nome engraçado
Foi na esquina da 13 de Maio com a Valdivino Tito que conheci Dona Luísa. Dona Luísa é uma senhora pequena e amável, e está sempre sorrindo, ostensivamente, como se não fazê-lo fosse falta gravíssima e todos devessem imitá-la. Aqui a maioria a conhece. O marido, com quem viveu por mais de quarenta anos, cliente dileto do bar e amigo de todos os demais fiéis frequentadores, morreu. Hoje faz dois meses, fiquei sabendo. Há cerca de três semanas, Dona Luísa começou a vir diariamente, chegando às quatro e partindo às seis, e, como durante anos o marido diariamente fizera, Dona Luísa se senta na mesa atrás do freezer azul-claro, sempre na mesa atrás do freezer azul-claro, e bebe suas sagradas cinco antarcticas. Dona Luísa parece fazer isso como se assim pudesse esconder de si mesma e dos demais a inelutável descontinuidade da morte
2
Inelutável continuidade da vida: tendo acabado de perder aquela com quem partilhara a maior parte dos seus dias, ele, aquele sobre quem a sombra da morte mais pesará, diz, com uma voz que é menos sua que daqueles que o cercam: "Mais um dia quente". Foi em Ozu
3
Valdivino Tito é um nome engraçado
27.9.14
rastro fugaz
em fevereiro de 2009 você ficou de saco cheio das coisas sentimentais que você escrevia nesse blog aqui, e fez outro. essa aí foi a única postagem do novo blog, uma postagem temporária, um teste, que você deveria apagar e então começar a escrever as coisas sérias de um blog sério que deveria servir pra tomada de notas dos seus interesses acadêmicos. e por algum motivo você escolheu esse poema, de um escritor que naqueles anos você gostava muito. você não apagou. o poema continua lá, intacto. e você não conseguiu escrever nada sério lá. assim como você não conseguiu fazer um bom curso na universidade, ler o suficiente, publicar etc. dar algum sentido a sua vida, mesmo que isso tivesse a ver com algo frio e desinteressante como uma carreira acadêmica. outubro de 2014: você não tem nada publicado, você ainda não fez uma pós-graduação, nem sabe se um dia vai conseguir fazer
em fevereiro de 2009, o amor viria depois, como um sacramento. outubro de 2014: não veio
em fevereiro de 2009, você tentava aprender a ser sozinho, além de toda melancolia. outubro de 2014: você não aprendeu
outubro de 2014: você ainda se encanta. você tem isso
13.9.14
promoção + batata + refrigerante
você entra no seu quarto, tira a roupa e põe a minha camisa, e desaba, mas com certo cuidado e cálculo, sobre sua cama, ou seja, você não desaba de verdade, mas você gosta da ideia de desabar, e pensa nisso milésimos de segundos depois do ato, ainda acordada, a cabeça pousando sobre o colchão, e se detendo ali, ao pé do seu travesseiro duro, esse ser inútil e babado, que não chega a estar fedido, mas que contrasta com o cheiro bom que você sente assim que entra no quarto, tira a roupa e põe a minha camisa, antes de deslizar sobre sua cama e se deter ali, antes de a sua cabeça alcançar o travesseiro, esse platô besta com fronha
você entra, joga a mochila no chão, tira a roupa, se abaixa pra ligar o pequeno ventilador que fica debaixo da mesa, tira a minha camisa da mochila, veste a minha camisa, pula, ou só sobe de gatinhas na cama, desliza e se detêm ali, e o travesseiro nem fede tanto, só lhe chateia por motivos que você tem preguiça de procurar agora, aqui, ali, e você adormece, dentro da luz e do calor das duas da tarde do mês de setembro em teresina
você entra e dorme, seminua, a camisa úmida e fria, você sentindo a cada pequeno movimento a brisa do ventilador esfriar também as recém-nascidas gotas de suor que começam a formar fios e deslizam transversalmente nas suas coxas e lhe causam arrepio, e seus pelinhos eriçados puxam a pele e criam o relevo de centenas de poros que em certa medida desviam o curso natural do suor levando o acaso a outro nível
você acorda mas não desperta, não abre os olhos mas sabe que ainda é dia pela claridade que toca suas pálpebras meio pesadas e trêmulas de quem ainda não se desvencilhou completamente do sono e nem faz força nesse sentido, apesar do leve incomodo do suor frio nas suas pernas e na camiseta grudada ao torso, ao qual você responde dando puxões nas costas e entre seios sobre a camiseta e passando a mão como se fosse um rodinho por toda a extensão interna das suas coxas até alcançar seu sexo
você detém a mão ali, primeiro em concha, depois mais relaxada, sente um pouco a aspereza dos pelos de três dias, sente a brisa do ventilador sobre o dorso da sua mão e atravessando o vão entre os dedos, então aperta seu sexo como quem aperta um sanduíche antes da primeira mordida, pensa em mim mordendo um sanduíche no centro de uma praça de alimentação de um shopping distante qualquer, sorri e volta a dormir profundamente
você entra, joga a mochila no chão, tira a roupa, se abaixa pra ligar o pequeno ventilador que fica debaixo da mesa, tira a minha camisa da mochila, veste a minha camisa, pula, ou só sobe de gatinhas na cama, desliza e se detêm ali, e o travesseiro nem fede tanto, só lhe chateia por motivos que você tem preguiça de procurar agora, aqui, ali, e você adormece, dentro da luz e do calor das duas da tarde do mês de setembro em teresina
você entra e dorme, seminua, a camisa úmida e fria, você sentindo a cada pequeno movimento a brisa do ventilador esfriar também as recém-nascidas gotas de suor que começam a formar fios e deslizam transversalmente nas suas coxas e lhe causam arrepio, e seus pelinhos eriçados puxam a pele e criam o relevo de centenas de poros que em certa medida desviam o curso natural do suor levando o acaso a outro nível
você acorda mas não desperta, não abre os olhos mas sabe que ainda é dia pela claridade que toca suas pálpebras meio pesadas e trêmulas de quem ainda não se desvencilhou completamente do sono e nem faz força nesse sentido, apesar do leve incomodo do suor frio nas suas pernas e na camiseta grudada ao torso, ao qual você responde dando puxões nas costas e entre seios sobre a camiseta e passando a mão como se fosse um rodinho por toda a extensão interna das suas coxas até alcançar seu sexo
você detém a mão ali, primeiro em concha, depois mais relaxada, sente um pouco a aspereza dos pelos de três dias, sente a brisa do ventilador sobre o dorso da sua mão e atravessando o vão entre os dedos, então aperta seu sexo como quem aperta um sanduíche antes da primeira mordida, pensa em mim mordendo um sanduíche no centro de uma praça de alimentação de um shopping distante qualquer, sorri e volta a dormir profundamente
6.9.14
jm construções
É estranho e incoerente o processo das saudades, ou da falta, tanto se for pela ausência como por abandono ou morte. A gente crê a princípio que não pode viver sem alguém ou distante de alguém, a dor inicial é tão afiada e constante que a gente sente como que uma prostração sem limite ou como que uma lança interminável que avança, porque cada minuto de privação conta e pesa, se faz notar e fica atravessado em nossa garganta, e a gente só espera que as horas do dia passem, sabendo que sua passagem não nos levará a nada de novo a não ser a mais espera de mais espera. Cada manhã a gente abre os olhos -- se nos beneficiamos do sono que não permite esquecer totalmente, mas que confunde -- com o mesmo pensamento que nos oprimiu justo antes de fechá-los
se marquem aí seus maluco
na foto, da esquerda pra direita, em cima: pedro, pedro, pedro, pedro; em baixo: pedro, pedro, pedro, pedro; lá atrás, olhando pro chão: pedro
não tem foto, nem ninguém, nem pedro
blog seriedade
rigor
não tem foto, nem ninguém, nem pedro
blog seriedade
rigor
5.9.14
viva a sua vida, margarida
você fica pensando na sensatez da expressão vive tua vida. na estupidez arrogante da expressão vive tua vida. você fica pensando na presunção de quem diz vive tua vida. você fica pensando na peso da expressão vive tua vida. na enorme carga semântica de vive tua vida. na completa falta de sentido da expressão vive tua vida. na violência de vive tua vida. o que significa dizer vive tua vida? o que se espera? com que direito? com que vida? você fica pensando na solidão de quem diz vive tua vida. na solidão de quem escuta
vive tua vida
vive tua vida
era bom
hoje organizando as coisas do quarto você sentiu o cheiro de um perfume que você usou durante muitos anos. o cheiro lhe fez lembrar um casaco de frio azul-marinho que você usava na escola. o casaco fez você lembrar das manhãs frias em que você matava as aulas de revisão do começo do ensino médio. você subia a longa e íngreme escada que dava pro auditório, abria a porta e logo dobrava à esquerda pra ir se sentar no extremo oposto da última fileira, longe da porta e perto da luz do sol que descia amena das cortinas pesadas. das sete às nove você dormia feito um bebê naquele escuro acolhedor. às vezes uma professora da oitava série levava uma turma pra ver documentários sobre a segunda guerra. você continuava ali, na penumbra lá de trás. antes de voltar a dormir olhava um pouco pras meninas naqueles uniformes que modelavam tão bem o corpo. elas também carregavam seus casacos azuis, se abraçavam a eles, se roçavam, os cheiravam, e cada um tinha um cheiro. não necessariamente o de quem usava no momento. talvez fosse de uma amiga que tivesse assistindo outra aula. talvez fosse de um amigo ou projeto de namorado. uma das melhores lembranças dessa época tem a ver com esse casaco. aos sábados você e aquela que viria a ser sua namorada marcavam de se ver no cinema do shopping. ela saia da escola dela. você saia da sua. você saia do frio da sala de aula, enfrentava o calor do meio-dia e voltava pro frio do shopping pra ver alguém. isso tem a ver com gostar. as mudanças repentinas de temperatura sempre lhe davam mal estar. mas quando via você, ela corria os braços pra dentro do seu casaco pra lhe abraçar e vocês ficavam assim por longos minutos, chamando atenção, retardados mas protegidos, do frio e da própria vergonha, ela cheirando o seu ombro, você cheirando os cabelos dela, enquanto conversavam preguiçosamente sobre qualquer besteira do dia ou decidiam o filme de bosta que talvez pudessem ver mas nunca viam. era bom. as coisas do mundo tinham contorno, e matéria. e é isso
4.9.14
31.8.14
dropped
escutar esse álbum ajuda você a lembrar de algumas coisas de que você não pode esquecer: sobre quem você é, sobre até onde você pode ir, sobre até onde você já foi, sobre os lugares de onde você caiu, sobre seus muitos defeitos e suas poucas qualidades, sobre seus limites. ajuda você a pôr o pé no chão, a separar o que importa do que não importa, e escolher o que importa, mesmo que isso lhe leve ao erro ou a lugar nenhum
é fim de tarde e você deita e escuta do início ao fim, uma interrupção sequer. não é alegria o que você sente durante ou depois. então você decide caminhar até a padaria. tomar ar. você é assaltado na esquina. você só leva alguns trocados no bolso como de costume. sua apatia ofende o ladrão, que só não lhe dá uma surra por pura preguiça. da última fez você levou um chute. teve emoção. dessa vez não, zero de coreografia. então você volta. então
28.8.14
depois da sessão das três você chama pelo sono mas ele foi dar um rolé e não voltou
você gosta de fazer print quando assiste filme no computador. você se sente bem fotografando o filme por assim dizer. você é besta. alguns quadros são muito bons e você não resiste e tira vários prints quase idênticos pra guardar. esse por exemplo. esse faz você sorrir. você tem vontade de postar isso aí e marcar seus amigos. ia ser bom. ia ser leve. ia ser bom unir seus amigos numa cena dum filme que você gosta. os comentários, a julgar pela molequice gentil dos seus amigos, seriam bons, lhe fariam bem, lhe dariam aquela sensação de pertencimento que todo mundo precisa de vez em quando pra seguir. seus amigos tornam o mundo um lugar respirável
mas você não consegue escolher quem é quem. tá difícil. você escreveria assim
ei, seus maluco, se marquem aí
24.8.14
história universal dos ombros
21.8.14
que bosta mekas
um cara vai falar sobre o jonas mekas num evento na sua cidade. você pensa em ir lá conferir. faz tempo você não assiste nada do jonas mekas. jonas mekas é coisa de jovem cinéfilo. jovens cinéfilos do facebook curtem jonas mekas. talvez você seja um jovem cinéfilo de facebook. talvez você ainda tenha alguma coisa no hd do seu computador antigo. tem tanta tralha ali. você queria se livrar dele. mas não consegue. talvez lost lost lost esteja lá. você lembra que o frank o'hara aparece a certa altura da coisa. outro dia você tava lendo frank o'hara por causa de mad men, por causa do episódio em que o don lê o'hara, porque você tá revendo todas as temporadas de mad men, porque você não tem vida social e precisa nutrir afetos por algo, nem que sejam personagens de seriado, e agora é a vez de mad men. você quase não tem mais saco pra poesia. mas frank o'hara persiste, e é foda. mas você falava do lost lost lost. você gosta desse aí. tipo de coisa que faz você ter vontade de fazer esse tipo de coisa. ou, na falta de iniciativa e taleto, conversar sobre esse tipo de coisa. ou, na falta de um amigo com quem você se sinta à vontade pra conversar sem cerimônia e frescura sobre esse tipo de coisa, escrever sobre esse tipo de coisa. ou... e por aí vai. você aproveita a ocasião e relê aquela compilação de textos do jonas mekas. você não vai conseguir dormir mesmo. você lembra que gosta muito, p. ex., desse título: notas sobre alguns filmes e a felicidade. esse "e a felicidade", essa conjunção inesperada, você acha isso um negócio muito bom. talvez você só seja muito besta. mas deixa pra lá. nesse texto ele diz:
Esses filmes são como jogos, não são nada "sérios". Nem mesmo parecem cinema. Ficam felizes em se chamarem "filmes caseiros". Jogos inúteis, "insensatos", "infantis", sem grande "intelecto", sem "nada" a "dizer"; algumas pessoas sensatas, caminhando, pulando, dormindo, ou rindo, fazendo coisas inúteis, desimportantes, sem "intenções", sem "mensagens" -- parecem estar ali apenas por estar. Que irresponsável! Motivos de asas de mariposa, pétalas de flores, desenhos aleatórios: onde está e qual é o significado "profundo" de toda essa brincadeira? [...] Nada "dramático", nada realmente para os adultos que, afinal, estão aqui para fazer coisas grandes.você gosta disso, dessa retórica bobona aí. mas você sabe que isso aí abre espaço pra um bocado de oportunismo, pra um bocado de besteira pedante. você desiste de dormir e vai pra cozinha, abre os basculantes pra sentir a brisa, você abre a mão sobre o mármore ligeiramente frio da mesa e continua a ler. numa nota sobre a marilyn monroe de Os desajustados, ele se pergunta:
Estaria MM interpretando a si mesma ou criando uma personagem? Será que Miller e Huston criaram uma personagem ou simplesmente recriaram MM? Talvez ela esteja até manifestando seus próprios pensamentos, sua própria vida? Não importa muito. Há tanta verdade nos seus pequenos detalhes, em suas reações diante da crueldade, da falsa masculinidade, natureza, vida, morte, que ela se mostra arrebatadora, uma das personagens mais trágicas e contemporâneas do cinema moderno, e outra contribuição à Mulher como Heroína Moderna em Busca do Amor.você acha massa o jeito com que ele reivindica dum jeito sutil não-besta a persona pública (no fim das contas ficcional) do ator como chave interpretativa pra persona ficcional do filme. ele finaliza dum jeito falsamente inocente (mas genuíno) que não lhe chateia:
Estamos sempre procurando pela "arte", ou por boas histórias, drama, ideias, conteúdo nos filmes -- como estamos acostumados a fazer nos livros. Por que não esquecer a literatura, o drama e Aristóteles?! Vamos assistir ao rosto do homem na tela, o rosto de MM, conforme este muda, reage. Sem drama, sem ideias, apenas um rosto humano em toda a sua nudez -- algo que nenhuma outra arte pode fazer. Vamos assistir a esse rosto, a seus movimentos, a suas nuances; é este o rosto, o rosto de MM, que consiste no conteúdo, na história e na ideia do filme -- que consiste no mundo todo, na verdade.você fica pensando nos filmes do mekas, nesses projetos diarísticos dele, nisso de uns dispositivos pra dar conta das próprias experiências pessoais, impressões etc. pra dar conta da própria vida. isso lhe interessa. ao mesmo tempo isso lhe chateia muito em muitos escritores e outros "artistas" etc. talvez pela pretensão, pela "presunção de saída" deles. você pensa: "não, vocês não entenderam nada. não é pra isso que isso serve, não é por isso, não é assim". enquanto você fica pensando no mekas, amanhece. você não tá exatamente feliz. você não tá exatamente triste. você sente saudade de umas coisas, de umas pessoas. você não consegue discernir entre o desejo de esquecer e o desejo de desejar e suprir, de suprir e desejar, de desejar desejar. hoje é dia 21 e aqui nessa cozinha a única coisa que dormiu foi o pão etc. você não sabe mais escrever. olha a cor do céu blablablá ploc
,
Uma verdadeira paixão que vive a manifestar-se é aquela de vir buscar os vivos. Como os invejam pelos objetos todos da vida cotidiana que tiveram que deixar para trás, era costume não conservar coisa alguma destes, ou apenas o mínimo possível. Eram todos colocados na cova ou incinerados junto com os mortos. Abandonava-se a cabana onde estes haviam morado e jamais se voltava lá. Com frequência, enterravam-se os mortos em sua própria casa, juntamente com todos os seus pertences, a fim de deixar-lhes claro que não se pretendia ficar com estes últimos. Tampouco isso bastava, porém, para desviar-lhes inteiramente a ira, pois a inveja maior dos mortos não se dirigia aos objetos -- que podiam ser novamente produzidos ou adquiridos --, mas sim à própria vida.
-- canetti, massa e poder
Para nós que somos imbuídos do culto da lembrança e veneramos os mortos à vontade, tal atitude pode parecer chocante. Não se deve ver indiferença nessa expulsão dos defuntos para fora da memória dos vivos, e sim a idéia de que os vivos só podem estar verdadeiramente vivos se os mortos estiverem verdadeiramente mortos. Ora, a fronteira que os separa nem sempre é claramente delimitada, como não é instantânea a passagem de um para outro estado; esta se cumpre gradualmente ao longo de um perigoso período liminar que que as pessoas próximas ao quase-desaparecido ficam ameaçadas de ter o mesmo destino, expostas a seus constantes convives, obrigadas a dissolvê-lo num esquecimento voluntário para que, esvanecendo-se dos seus pensamentos, possa levar a termo o processo de extinção. Longe de ser uma faculdade que se cultiva, a memória é aqui uma fatalidade suportada, uma excitação do espírito desencadeada por outrem, e é para impedir o morto de exercer essa solicitação da lembrança -- e de modo algum para comemorá-lo -- que se realizam esses rituais funerários.
-- philippe descola, as lanças do crepúsculo
Essa é a pior parte. Essa é a armadilha que ela construiu, uma armadilha de que ele ainda não encontrou um jeito de escapar. Se cortasse todos os laços, se não escrevesse nunca, ela tiraria as piores conclusões, as piores possíveis; e a simples idéia da dor que a atravessaria nesse momento o faz desejar tapar os olhos e ouvidos. Enquanto ela estiver viva, ele não ousa morrer. Enquanto ela estiver viva, portanto, a vida não pertence a ele. Não pode ser descuidado com a vida. Embora não tenha um particular amor por si mesmo, deve por ela, cuidar de si mesmo, a ponto de se agasalhar, de comer bem, de tomar vitamina C. Quanto ao suicídio, isso não pode nem ser cogitado-- coetzee, juventude[...] escrever um romance da perspectiva de um homem que morreu, que sabe que lhe restam dois dias antes de ele -- isto é, seu corpo -- encovar e começar a apodrecer e a cheirar, que não espera conseguir nada nesses dois dias a não ser viver um pouco mais, cujos momentos são coloridos, todos, de tristeza. Algumas pessoas do mundo dele simplesmente não o vêem (ele é um fantasma). Algumas têm consciência dele; mas ele emana um ar de superfluididade, sua presença as irrita, elas querem que ele vá embora e as deixe prosseguir com suas vidas. Uma delas, uma mulher, tem uma atitude mais complexa. Embora lamente que ele esteja passando por uma crise de despedida, ela concorda que seria melhor para ele e para todo mundo se aceitasse seu fardo e partisse.-- coetzee, diário de um ano ruim
13.8.14
na ida de fim de noite ao supermercado
Ray estava fazendo as coisas da maneira mais difícil, indo contra todas as tendências da época. Naqueles anos, o conto era uma forma literária menor. O realismo parecia esgotado. O escritor a que Ray imediatamente remetia, Hemingway, estava no início de um eclipse póstumo. Nas décadas de 1960 e 1970, os escritores mais discutidos -- Mailer, Bellow, Roth, Updike, Barth, Wolfe, Pynchon -- buscavam o exagero, não a contenção, escrevendo romances caudalosos de excessos intelectuais, linguísticos ou eróticos e jornalismo de alta octanagem. Havia uma espécie de competição para engolir toda a vida americana, para espalhar e distorcer em prosa os fatos sociais de um país que tinha uma capacidade ilimitada para se transformar e chocar.
Ray, cujo ídolo era Tchékhov, andava na direção oposta das tendências literárias e mantinha a fé numa tarefa mais silenciosa, seguindo a máxima de Ezra Pound de que "a exatidão fundamental da afirmação é a única moralidade da escrita". Ao prestar a máxima atenção às vidas das pessoas marginalizadas, perdidas, gente que mal aparecia e raramente era levada a sério na ficção americana contemporânea (se figuravam em algum lugar, era nas pinturas de Edward Hopper), Ray punha seus dedos no pulso de uma solidão mais profunda. Ele parecia saber, da forma não intencional de um escritor de ficção, que o futuro do país seria mais assustador na sua própria mediocridade, na ida de fim de noite ao supermercado, o bazar da garagem no fim da linha. Ele sentia que, sob a superfície da vida, não havia nada para sustentá-la.
-- desagregação, george packer
apesar de ser legal, é meio errada essa divisão. roth e pynchon, por exemplo, têm momentos tchekhovianos do caralho né não. mas é legal. ei, me passa a manteiga
11.8.14
notícia do dia outro comediante se mata e em são paulo 19 graus
-- chaguinha o robino williãos se matou ele
-- quem mandou não querer ser roubô sem sentimento
-- eu chorava vendo os filme dele jumanji foda aquela bosta de sociedade dos chatos mortos uma merda mas fazia chorar
-- eu também
-- quem mandou não querer ser roubô sem sentimento
-- eu chorava vendo os filme dele jumanji foda aquela bosta de sociedade dos chatos mortos uma merda mas fazia chorar
-- eu também
9.8.14
§
acabo de sonhar ou sonho ainda que moro em paris e que durante a noite em meu singelo chambre de bonne revelo fotos que imediatamente depois queimo para então tentar descrever nesse pequeno caderno de capa cáqui o que lá havia e não mais há mesmo que tudo permaneça no mesmo lugar
§
acabo de sonhar mas sonho ainda e vejo e com tanta nitidez essa cumbuquinha de nescafé e vejo como se estivesse acordado esses três pares de meia de molho nessa bacia de plástico cor-de-rosa
§
ao lado da pequena
pilha de livros
um frasco guarda
os olhos azuis
de georges perec
acabo de sonhar ou sonho ainda que moro em paris e que durante a noite em meu singelo chambre de bonne revelo fotos que imediatamente depois queimo para então tentar descrever nesse pequeno caderno de capa cáqui o que lá havia e não mais há mesmo que tudo permaneça no mesmo lugar
§
acabo de sonhar mas sonho ainda e vejo e com tanta nitidez essa cumbuquinha de nescafé e vejo como se estivesse acordado esses três pares de meia de molho nessa bacia de plástico cor-de-rosa
§
ao lado da pequena
pilha de livros
um frasco guarda
os olhos azuis
de georges perec







