21.8.14

que bosta mekas

um cara vai falar sobre o jonas mekas num evento na sua cidade. você pensa em ir lá conferir. faz tempo você não assiste nada do jonas mekas. jonas mekas é coisa de jovem cinéfilo. jovens cinéfilos do facebook curtem jonas mekas. talvez você seja um jovem cinéfilo de facebook. talvez você ainda tenha alguma coisa no hd do seu computador antigo. tem tanta tralha ali. você queria se livrar dele. mas não consegue. talvez lost lost lost esteja lá. você lembra que o frank o'hara aparece a certa altura da coisa. outro dia você tava lendo frank o'hara por causa de mad men, por causa do episódio em que o don lê o'hara, porque você tá revendo todas as temporadas de mad men, porque você não tem vida social e precisa nutrir afetos por algo, nem que sejam personagens de seriado, e agora é a vez de mad men. você quase não tem mais saco pra poesia. mas frank o'hara persiste, e é foda. mas você falava do lost lost lost. você gosta desse aí. tipo de coisa que faz você ter vontade de fazer esse tipo de coisa. ou, na falta de iniciativa e taleto, conversar sobre esse tipo de coisa. ou, na falta de um amigo com quem você se sinta à vontade pra conversar sem cerimônia e frescura sobre esse tipo de coisa, escrever sobre esse tipo de coisa. ou... e por aí vai. você aproveita a ocasião e relê aquela compilação de textos do jonas mekas. você não vai conseguir dormir mesmo. você lembra que gosta muito, p. ex., desse título: notas sobre alguns filmes e a felicidade. esse "e a felicidade", essa conjunção inesperada, você acha isso um negócio muito bom. talvez você só seja muito besta. mas deixa pra lá. nesse texto ele diz:
Esses filmes são como jogos, não são nada "sérios". Nem mesmo parecem cinema. Ficam felizes em se chamarem "filmes caseiros". Jogos inúteis, "insensatos", "infantis", sem grande "intelecto", sem "nada" a "dizer"; algumas pessoas sensatas, caminhando, pulando, dormindo, ou rindo, fazendo coisas inúteis, desimportantes, sem "intenções", sem "mensagens" -- parecem estar ali apenas por estar. Que irresponsável! Motivos de asas de mariposa, pétalas de flores, desenhos aleatórios: onde está e qual é o significado "profundo" de toda essa brincadeira? [...] Nada "dramático", nada realmente para os adultos que, afinal, estão aqui para fazer coisas grandes.
você gosta disso, dessa retórica bobona aí. mas você sabe que isso aí abre espaço pra um bocado de oportunismo, pra um bocado de besteira pedante. você desiste de dormir e vai pra cozinha, abre os basculantes pra sentir a brisa, você abre a mão sobre o mármore ligeiramente frio da mesa e continua a ler. numa nota sobre a marilyn monroe de Os desajustados, ele se pergunta:
Estaria MM interpretando a si mesma ou criando uma personagem? Será que Miller e Huston criaram uma personagem ou simplesmente recriaram MM? Talvez ela esteja até manifestando seus próprios pensamentos, sua própria vida? Não importa muito. Há tanta verdade nos seus pequenos detalhes, em suas reações diante da crueldade, da falsa masculinidade, natureza, vida, morte, que ela se mostra arrebatadora, uma das personagens mais trágicas e contemporâneas do cinema moderno, e outra contribuição à Mulher como Heroína Moderna em Busca do Amor.
você acha massa o jeito com que ele reivindica dum jeito sutil não-besta a persona pública (no fim das contas ficcional) do ator como chave interpretativa pra persona ficcional do filme. ele finaliza dum jeito falsamente inocente (mas genuíno) que não lhe chateia:
Estamos sempre procurando pela "arte", ou por boas histórias, drama, ideias, conteúdo nos filmes -- como estamos acostumados a fazer nos livros. Por que não esquecer a literatura, o drama e Aristóteles?! Vamos assistir ao rosto do homem na tela, o rosto de MM, conforme este muda, reage. Sem drama, sem ideias, apenas um rosto humano em toda a sua nudez -- algo que nenhuma outra arte pode fazer. Vamos assistir a esse rosto, a seus movimentos, a suas nuances; é este o rosto, o rosto de MM, que consiste no conteúdo, na história e na ideia do filme -- que consiste no mundo todo, na verdade.
você fica pensando nos filmes do mekas, nesses projetos diarísticos dele, nisso de uns dispositivos pra dar conta das próprias experiências pessoais, impressões etc. pra dar conta da própria vida. isso lhe interessa. ao mesmo tempo isso lhe chateia muito em muitos escritores e outros "artistas" etc. talvez pela pretensão, pela "presunção de saída" deles. você pensa: "não, vocês não entenderam nada. não é pra isso que isso serve, não é por isso, não é assim". enquanto você fica pensando no mekas, amanhece. você não tá exatamente feliz. você não tá exatamente triste. você sente saudade de umas coisas, de umas pessoas. você não consegue discernir entre o desejo de esquecer e o desejo de desejar e suprir, de suprir e desejar, de desejar desejar. hoje é dia 21 e aqui nessa cozinha a única coisa que dormiu foi o pão etc. você não sabe mais escrever. olha a cor do céu blablablá ploc