5.9.14
era bom
hoje organizando as coisas do quarto você sentiu o cheiro de um perfume que você usou durante muitos anos. o cheiro lhe fez lembrar um casaco de frio azul-marinho que você usava na escola. o casaco fez você lembrar das manhãs frias em que você matava as aulas de revisão do começo do ensino médio. você subia a longa e íngreme escada que dava pro auditório, abria a porta e logo dobrava à esquerda pra ir se sentar no extremo oposto da última fileira, longe da porta e perto da luz do sol que descia amena das cortinas pesadas. das sete às nove você dormia feito um bebê naquele escuro acolhedor. às vezes uma professora da oitava série levava uma turma pra ver documentários sobre a segunda guerra. você continuava ali, na penumbra lá de trás. antes de voltar a dormir olhava um pouco pras meninas naqueles uniformes que modelavam tão bem o corpo. elas também carregavam seus casacos azuis, se abraçavam a eles, se roçavam, os cheiravam, e cada um tinha um cheiro. não necessariamente o de quem usava no momento. talvez fosse de uma amiga que tivesse assistindo outra aula. talvez fosse de um amigo ou projeto de namorado. uma das melhores lembranças dessa época tem a ver com esse casaco. aos sábados você e aquela que viria a ser sua namorada marcavam de se ver no cinema do shopping. ela saia da escola dela. você saia da sua. você saia do frio da sala de aula, enfrentava o calor do meio-dia e voltava pro frio do shopping pra ver alguém. isso tem a ver com gostar. as mudanças repentinas de temperatura sempre lhe davam mal estar. mas quando via você, ela corria os braços pra dentro do seu casaco pra lhe abraçar e vocês ficavam assim por longos minutos, chamando atenção, retardados mas protegidos, do frio e da própria vergonha, ela cheirando o seu ombro, você cheirando os cabelos dela, enquanto conversavam preguiçosamente sobre qualquer besteira do dia ou decidiam o filme de bosta que talvez pudessem ver mas nunca viam. era bom. as coisas do mundo tinham contorno, e matéria. e é isso