Uma verdadeira paixão que vive a manifestar-se é aquela de vir buscar os vivos. Como os invejam pelos objetos todos da vida cotidiana que tiveram que deixar para trás, era costume não conservar coisa alguma destes, ou apenas o mínimo possível. Eram todos colocados na cova ou incinerados junto com os mortos. Abandonava-se a cabana onde estes haviam morado e jamais se voltava lá. Com frequência, enterravam-se os mortos em sua própria casa, juntamente com todos os seus pertences, a fim de deixar-lhes claro que não se pretendia ficar com estes últimos. Tampouco isso bastava, porém, para desviar-lhes inteiramente a ira, pois a inveja maior dos mortos não se dirigia aos objetos -- que podiam ser novamente produzidos ou adquiridos --, mas sim à própria vida.
-- canetti, massa e poder
Para nós que somos imbuídos do culto da lembrança e veneramos os mortos à vontade, tal atitude pode parecer chocante. Não se deve ver indiferença nessa expulsão dos defuntos para fora da memória dos vivos, e sim a idéia de que os vivos só podem estar verdadeiramente vivos se os mortos estiverem verdadeiramente mortos. Ora, a fronteira que os separa nem sempre é claramente delimitada, como não é instantânea a passagem de um para outro estado; esta se cumpre gradualmente ao longo de um perigoso período liminar que que as pessoas próximas ao quase-desaparecido ficam ameaçadas de ter o mesmo destino, expostas a seus constantes convives, obrigadas a dissolvê-lo num esquecimento voluntário para que, esvanecendo-se dos seus pensamentos, possa levar a termo o processo de extinção. Longe de ser uma faculdade que se cultiva, a memória é aqui uma fatalidade suportada, uma excitação do espírito desencadeada por outrem, e é para impedir o morto de exercer essa solicitação da lembrança -- e de modo algum para comemorá-lo -- que se realizam esses rituais funerários.
-- philippe descola, as lanças do crepúsculo
Essa é a pior parte. Essa é a armadilha que ela construiu, uma armadilha de que ele ainda não encontrou um jeito de escapar. Se cortasse todos os laços, se não escrevesse nunca, ela tiraria as piores conclusões, as piores possíveis; e a simples idéia da dor que a atravessaria nesse momento o faz desejar tapar os olhos e ouvidos. Enquanto ela estiver viva, ele não ousa morrer. Enquanto ela estiver viva, portanto, a vida não pertence a ele. Não pode ser descuidado com a vida. Embora não tenha um particular amor por si mesmo, deve por ela, cuidar de si mesmo, a ponto de se agasalhar, de comer bem, de tomar vitamina C. Quanto ao suicídio, isso não pode nem ser cogitado-- coetzee, juventude[...] escrever um romance da perspectiva de um homem que morreu, que sabe que lhe restam dois dias antes de ele -- isto é, seu corpo -- encovar e começar a apodrecer e a cheirar, que não espera conseguir nada nesses dois dias a não ser viver um pouco mais, cujos momentos são coloridos, todos, de tristeza. Algumas pessoas do mundo dele simplesmente não o vêem (ele é um fantasma). Algumas têm consciência dele; mas ele emana um ar de superfluididade, sua presença as irrita, elas querem que ele vá embora e as deixe prosseguir com suas vidas. Uma delas, uma mulher, tem uma atitude mais complexa. Embora lamente que ele esteja passando por uma crise de despedida, ela concorda que seria melhor para ele e para todo mundo se aceitasse seu fardo e partisse.-- coetzee, diário de um ano ruim
