13.8.14

na ida de fim de noite ao supermercado

Ray estava fazendo as coisas da maneira mais difícil, indo contra todas as tendências da época. Naqueles anos, o conto era uma forma literária menor. O realismo parecia esgotado. O escritor a que Ray imediatamente remetia, Hemingway, estava no início de um eclipse póstumo. Nas décadas de 1960 e 1970, os escritores mais discutidos -- Mailer, Bellow, Roth, Updike, Barth, Wolfe, Pynchon -- buscavam o exagero, não a contenção, escrevendo romances caudalosos de excessos intelectuais, linguísticos ou eróticos e jornalismo de alta octanagem. Havia uma espécie de competição para engolir toda a vida americana, para espalhar e distorcer em prosa os fatos sociais de um país que tinha uma capacidade ilimitada para se transformar e chocar.
Ray, cujo ídolo era Tchékhov, andava na direção oposta das tendências literárias e mantinha a fé numa tarefa mais silenciosa, seguindo a máxima de Ezra Pound de que "a exatidão fundamental da afirmação é a única moralidade da escrita". Ao prestar a máxima atenção às vidas das pessoas marginalizadas, perdidas, gente que mal aparecia e raramente era levada a sério na ficção americana contemporânea (se figuravam em algum lugar, era nas pinturas de Edward Hopper), Ray punha seus dedos no pulso de uma solidão mais profunda. Ele parecia saber, da forma não intencional de um escritor de ficção, que o futuro do país seria mais assustador na sua própria mediocridade, na ida de fim de noite ao supermercado, o bazar da garagem no fim da linha. Ele sentia que, sob a superfície da vida, não havia nada para sustentá-la.

-- desagregação, george packer

apesar de ser legal, é meio errada essa divisão. roth e pynchon, por exemplo, têm momentos tchekhovianos do caralho né não. mas é legal. ei, me passa a manteiga