I.
sentada
às cinco
da manhã
na sarjeta
a jovem
funcionária
do fast-food
lê luto
e melancolia
numa tradução
ruim
II.
o mendigo
metafísico
distribui
livretos poemas
esfuziantes
é dado não é
vendido ele diz
antes de ganhar
uma moeda
e sumir feliz
como uma boa
rima ruim
IV.
e segue
a marchinha
metafísica
do mendigo
livresco
seus olhos
vermelhos
dizem muito
pouco
sobre a tristeza
VI.
não dizer luto
psicanalítico
demais
não estou
de luto
estou triste
é o que
ela lê
num outro livrinho que
cheira a
hambúrguer
VII.
no restaurante
universitário
com a boca
cheia de frango
ela diz
nunca vi uma
gaivota
em teresina
nunca vi um
melro
VIII.
no sofá-cama
nua
mordiscando
um tomate
chorando
com a novela
das oito
rindo da própria
tristeza
vencida
IX.
no sofá-cama
da kitnet
vencida pelo
cansaço
ela dorme
violão azul
sobre corpo
recém dedilhado